Uma janela, um binóculo e um garoto
Uma roda de amigos, um casal trocando caricias, uns moleques jogando
bola, alguns senhores disputando uma partida de dama para eliminar a
ociosidade, e mais um grupo de atletas, ou no mínimo pessoas tentando ficar em
plena forma, isso era tudo que o menino conseguia avistar da janela de seu
quarto com seu estimado binóculo que ganhara de seu avô.
A sua diversão principal, senão a única, era estar à beira de sua
janela a espionar a vida dos outros, posto que em sua vida nada mais lhe sobreviesse,
além de solidão e tristeza, muita tristeza. O que inquietava o garoto era a
ausência de algo, algo que ele tinha saudade, porém não sabia identificar o
quê. Tinha uma ótima família, uma ótima casa, tudo que desejava, na medida do possível,
seus pais lhe abonavam.
O ato de bisbilhotar os passantes da janela de seu quarto com seu
binóculo, refletia o sentimento da alma do garoto. Desejava satisfazer o desejo
de sua alma, e olhar o movimento da beira de sua janela era como se estivesse
em busca de identificar o que lhe faltava, ver os outros se mostrarem felizes,
não o ajudava em nada, apenas maltratava o pequeno coração do menino.
Ali, da janela de seu quarto, seu binóculo lhe proporcionava uma bela
visão, e a mais bela de todas era a visão do pôr do sol além do horizonte, no
entanto até a mais bela de todas as visões lhe inquietava a alma, pois pensava
estar ali, além do horizonte, lugar impossível de ser alcançado, aquilo que satisfaria
o desejo de sua alma, a plenitude de seu desejo, a resposta do que lhe faltava.
Longe, era assim que era definida a felicidade no vocabulário do
garoto, ele idealizara em sua mente que estava distante daquilo que o
satisfaria, o que só agravava a situação, quão logo percebia que era
impossibilitado de encontrá-la, de chegar até ela.
O menino se reprimia, quanto mais ele assim pensava. Não seria necessário
apenas deixar de lado a vista da janela e descer par fazer parte do cenário
original? Passar da posição de observador para a posição de participante da
vida? Não estaria ali, bem perto dele, a tão esperada felicidade? O tão
estimado binóculo, não estaria impedindo a aproximação do garoto para com a
realidade?
Sola Vita

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