Porque a gente morre?




Acordar cedo é uma espécie de
morte, a gente mata uma alma
que estava sonhando livre,
reatando-a firmemente a um corpo que não descansou
direito. Saímos remelentos, com
bafo de cemitério e assim
ficamos até que o relógio nos
obrigue a ficar pelo menos
apresentáveis. Nossa vida já
acabou faz tempo a esta hora.

O café da manhã normalmente
nos mata lentamente com coisas
nada saudáveis, tudo no fim das
contas faz mal: café, açúcar,
pão, margarina, etc. Penso que
tudo que a gente faz é errado
no ponto de vista da saúde.
Morrem mais pessoas por causa
da comida do que de fome.
Então, se sobrevivemos ao
desgraçado despertar
resmungão, agora desafiamos a
morte com as guloseimas de
cada dia.

Tudo bem, sai de casa depois de tanto risco entre acordar e
comer. Aí é que as coisas ficam
piores. Nossa morte é declarada
em cada esquina, seja a pé ou
dirigindo, há sempre um
assassino preparando uma
emboscada. Nem que seja abrir
a porta do carro para bloquear
o destino de um motoqueiro,
que esparramará couro e sangue
no asfalto sob o som de ossos
partindo. E este é só um
exemplo.

Mas se sobrevivemos até agora,
lá vem o nosso maior algoz, que
geralmente começa às 08h30min
e teoricamente vai até às
18h00min. Este sim é um
poderoso inimigo à nossa luta pela sobrevivência, embora seu
propósito seja ironicamente
oposto, não há forma mais
eficiente de matar alguém do que o mito do sucesso.

Nunca
seremos bons o suficiente em
qualquer coisa que se faça. Há
sempre alguém, geralmente pior
do que a gente para falar
qualquer besteira e transformar
todo esforço em gastrites,
enfartes, ou psicopatologias
assassinas. E chorar não adianta.

O retorno pós-guerra-do-dia-a-dia é muito parecido do que
deve ser uma alma desencarnando.
Estamos sim, pra
lá de mortos quando chegamos
em casa. Pergunte a qualquer
trabalhador como se sente após
uma longa jornada. Todo bom
trabalhador merece a paz, pelo
menos em sua casa.

Engano total, ficar em casa é o
mesmo que fechar o túmulo:
sedentarismo, tédio, televisão e o famoso tempo para pensar.
Pensar não é bom, não faz bem,
quanto mais pensamos, pior as
coisas ficam. O certo seria não
pensar, assim viveríamos muito
mais.

Afinal de contas, os idiotas
parecem ser à prova de morte.
Gente burra e ruim
simplesmente não morre.
Chega o final de semana então
tudo fica pior, cachaça, cigarro,
boletas, automóveis, energéticos,
egos inflados, tudo isso
misturado tende a matar muita
gente. Quem sobreviveu a tudo
durante a semana, agora sim
corre sérios riscos.

Tudo mata tudo faz mal, tudo é
morte, parece que não existe um
outro propósito para nascer.
Aliás, o nascimento é uma
espécie de morte para a alma
como diria Kardec no Livro dos
Espíritos. Estamos na verdade
mortos, esperando um
renascimento que nos libertará
(?) das pessoas e coisas que
passamos em média uns 70 anos
aprendendo a amar. Sentimos
isso toda noite quando o
cansaço nos derruba em sono
profundo.

Ali, no sono, nossa alma vai para
lugares onde a gente nem sabe
que conhece, interage com
outras almas que depois de
acordados não fazem muito
sentido. Muitas vezes
gostaríamos de não acordar dos
sonhos bons. Muitas vezes
também pensamos que seria
uma boa nem ter nascido.
Não faz muito sentido, a gente
morre todo dia quando acorda.
Todo mundo fala em descansar
em paz, mas a paz é algo
mortal. Ninguém sobrevive à
paz, a paz não é interessante e o
eterno descanso em paz deve
ser o maior tédio já inventado.

Conheço pessoas que se matam
trabalhando e matam outras
pessoas com sua ambição
inconsciente em busca da paz.
Nós morremos porque nascemos
com a falsa impressão de um
suposto propósito, que nos
matará cedo ou tarde, sendo
cumprido ou não.

Fazemos isso
todos os dias. Com ou sem
insônia fazendo guerra em nome
da paz. E a luta continua, até
que a morte nos separe ou o
sono nos liberte.
E isso é só pessoal...

Jonas Greco

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